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Evelin Coutinho | Birra, Como lidar?

Quem nunca presenciou a típica cena de uma criança e seu responsável num supermercado:

– Mãe, eu quero este chocolate.

– Filho, hoje não posso comprar.

– Mas, mãe, eu quero!

-Não posso!

-Mas, eu quero!

Então, vocês já podem imaginar as cenas dos próximos capítulos. Habitualmente são choros, gritos, crianças que se jogam no chão, se batem, batem em quem estiver acompanhando…

Ah, e a reação dos pais são as mais diversas: Diante do constrangimento, a vontade pode ser a de repetir os mesmos atos: gritar, bater… alguns se “seguram” e dizem: Em casa a gente conversa!

O fato é que não existe uma fórmula para lidar com as chamadas birras; se existisse já teríamos resolvido grande parte do desafio na educação dos filhos. Tudo o que sabemos é que a birra NÃO pertence exclusivamente a uma classe social ou etnia; não está limitada a uma geração, mas ela faz parte do desenvolvimento humano. Isso mesmo: PARTE DO DESENVOLVIMENTO HUMANO. Porém, em cada época pais interpretam este movimento de uma determinada maneira e reagirão de acordo com suas percepções de mundo e de compreensão humana.

Diante disso, o que nos importa saber é o porquê isto ocorre e assim ter mecanismos para  auxilia-los neste período do desenvolvimento de maneira saudável e que fortaleça o vínculo entre crianças e seus cuidadores.

A reação dos pais diante da birra dos filhos revela como lidam com as suas próprias frustrações. Se são omissos, ou exercem o autoritarismo, manifestam ainda uma imaturidade para com suas respectivas emoções.

A palavra birra se torna um rótulo negativo, regado por pensamentos implícitos como: esses pais não educam a criança ou essa criança tem um temperamento difícil, dentre outros…

É importante ressignificar o conceito birra, recolocando em um conceito mais condizente com a condição humana de APRENDIZADO.

A forma como nós adultos somos impactados por estes comportamentos tem por base como aprendemos a vivenciar os momentos de frustrações na infância, adolescência… O aprendizado é oriundo das palavras que ouvimos, dos conselhos que recebemos, e da disciplina em que estivemos exposto.

De fato, parece distante quando falamos de fases infantis, em torno de 1-4 anos, no entanto ali se encontra a base para ensinar a criança a conhecer suas emoções e gerencia-las. Nesta fase a criança ainda não consegue expressar todos os sentimentos, e isto tem uma explicação fisiológica: “O neocórtex que corresponde a 85% do cérebro, e é responsável por capacidades como reflexão, planejamento, imaginação, pensamento analítico e solução de problemas, porém, durante os primeiros anos de vida ainda faltam conexões suficientes entre os neurônios que existem ali.” Isto quer dizer que a criança é controlada pelas emoções e somente com a aquisição da linguagem e sua expansão será possível traduzir estas emoções de maneira racional. Por isso aos 2-3 anos de idade a criança não consegue por si só fazer este circuito, cabendo então ao adulto traduzir estes sentimentos em palavras e direciona-las a um novo olhar diante da situação estressora. 

O que compreende-se com este fato: A expressão linguística é o manejo para externar os sentimentos e emoções e assim organizar-se internamente retomando ao equilíbrio diante do caos.

Quando se tem o esclarecimento de que ela (birra) faz parte do desenvolvimento e há razões até mesmo fisiológicas que contribuem para este acontecimento, é possível aceitar como um mecanismo de aprendizado, tornando possível vivenciar estes momentos com paciência, empatia, imposição de limites, exercendo a autoridade sem culpa, tornando assim a disciplina uma aliada na educação.

Portanto, é importante saber que não é no momento da birra o espaço para ensiná-lo, mas no dia a dia, nas brincadeiras, nas conversas, nos momentos das histórias, por exemplo, é uma excelente oportunidade, aproveite este momento para criar personagens que tem que lidar com a perda, com os nãos, encaminhando as suas emoções em palavras que denotem sentido/significado para a criança, faça combinados e negociações (é importante mostrar que os pais são flexíveis também).

E no momento em que ocorrer a “birra”, não se frustre, RECOMECE!

Não se esqueça do abraço, do olho no olho, dizendo: eu te compreendo, por isso a minha função é te conduzir.

LEMBRE-SE: CONDUÇÃO DA FRUSTRAÇÃO É PARTE DA EDUCAÇÃO. 

Por Joildo Santos

Editor do Jornal Espaço do Povo