O problema de Morumbi e Paraisópolis

Por Leonardo Blecher

Foto Leonardo Blecher

“Desigualdade social, a origem de todo mal.” A frase pixada em um muro da Avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi, expressa um conceito amplamente discutido na sociedade brasileira, mas incompreendido por grande parte dos moradores do bairro.
Assustados com o aumento nas ocorrências policiais no Morumbi no último ano, cerca de 2500 habitantes da região realizaram uma manifestação na Praça Vinícius de Morais por mais segurança, no dia 28 de agosto. Como tantos outros neste ano, o protesto foi idealizado e organizado pelo Facebook.
“Através das redes sociais, a gente começou a ter informação sobre ocorrências constantes”, conta o diretor do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Portal do Morumbi, Agnaldo Oliveira.
Em um grupo fechado no Facebook, os moradores compartilham experiências de assaltos a casas e veículos, entre outros delitos. Analisando o conteúdo das mensagens escritas, é visível que a indignação dos participantes se volta contra as populações das favelas vizinhas, que chegaram a ser chamadas por alguns de “moradores indesejados”.
As principais reivindicações do grupo, que recebeu a alcunha de SOS Morumbi e é formado por diversas associações de moradores, além de cidadãos comuns, são a instalação de uma base da Polícia Militar na comunidade de Paraisópolis e o aumento no efetivo policial nos três distritos do Morumbi: Morumbi, Vila Sônia e Vila Andrade.
O segundo pedido dos manifestantes foi atendido prontamente pela PM, que reforçou em 50% o policiamento de pontos estratégicos onde são registradas a maioria das ocorrências.
Já o estabelecimento da base policial na segunda maior favela de São Paulo toca em um ponto mais delicado para todos os envolvidos.
“Reivindicamos a implantação de uma base, estilo UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), justamente para dar mais segurança àquela comunidade e acabar com o descontrole do governo”, afirma Oliveira.
De fato, o contexto do Morumbi muito se assemelha à realidade carioca, onde as UPPs foram criadas, em que condomínios de luxo e favelas são vizinhos próximos. E, assim como no Rio de Janeiro, a ocupação das comunidades pela polícia é exigida pela parcela mais rica da população.
“O Morumbi, como a cidade inteira, precisa ter uma situação de tranquilidade”, opina o coronel André Vianna, da reserva da PM de São Paulo. “E nem sempre essa tranquilidade significa presença policial.”
O que Vianna compreende, assim como o autor da frase pixada no muro da Giovanni Gronchi, e ao contrário de alguns moradores do bairro, é que o problema da região não será resolvido apenas com uma patrulha mais ostensiva das ruas.
Pouco antes da realização do protesto, o presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, Gilson da Cruz Rodrigues, divulgou uma carta, na qual defendeu que a solução para a realidade criticada pelo movimento SOS Morumbi “não passa por aumentar o muro que divide Morumbi e Paraisópolis”.
“O que mais diferencia os jovens que moram em Paraisópolis daqueles que moram no Morumbi é a ausência de oportunidades iguais”, disse Rodrigues. Ele acredita que a situação só será superada com investimentos em educação, saúde, esporte e moradia.
Se a resolução dos problemas dos dois lados da questão não consiste no aumento do policiamento parece algo claro, o que não fica evidente é a sua possível consequência. Uma questão a ser respondida é como é a atuação da polícia nas favelas em São Paulo.
Em 2009, a PM realizou a operação Paraisópolis, em que implementou o policiamento da área com grande efetivo de homens, viaturas, cavalos, cães e até helicoptero. A ação foi uma resposta ao tumulto gerado por uma manifestação contra o assassinato de um morador pela polícia e a prisão de outro um dia antes. Na ocasião, foram montadas barricadas nas ruas e pneus foram queimados.
A ocupação motivou diversas queixas dos habitantes da comunidade devido à truculência das abordagens. Todos que saíam da favela eram revistados por soldados que ostentavam armas de grande porte, desfilavam com cavalos nas ruas, entre outras atitudes para intimidar a população local.
“O nosso efetivo aqui é uma demonstração de força frente aos atos de vandalismo. Vamos identificar qualquer tipo de problema que surgir na favela”, declarou na época o capitão Emerson Massera, porta-voz da PM na operação.
O exemplo da Operação Paraisópolis é apenas o mais alarmante entre os inúmeros casos de abuso policial no trato com moradores desta e de outras favelas.
Segundo o Coronel Vianna, os soldados da PM não são estimulados pelos superiores a assumirem atitudes agressivas. No entanto, em sua opinião, diversos fatores influenciam nisso, sendo um deles a própria opinião popular, disseminada por programas sensacionalistas de televisão e até por políticos. Vianna cita o bordão “bandido bom é bandido morto”, criado pelo polêmico apresentador paranaense Luiz Carlos Alborghetti.
Fica evidente que uma atuação policial produtiva em comunidades como a de Paraisópolis depende diretamente de um maior preparo dos soldados. Nos moldes que hoje se configuram, o aumento da ação da polícia na região apenas beneficia aqueles com propriedades a defender, tornando ainda mais oprimida a vida dos pobres.
Em uma questão, no entanto, as lideranças do Morumbi e de Paraisópolis parecem concordar: “as comunidades dependem do Morumbi, e o Morumbi depende delas”, nas palavras de Oliveira, do Conseg. Resta saber como duas realidades tão distantes conseguirão conviver em harmonia, e – quem sabe? – até se tornar mais parecidas.

Joildo Santos

3 comentários sobre “O problema de Morumbi e Paraisópolis

  1. Penso que as comunidades e o Morumbi são um só. Precisamos trabalhar todos juntos pelo progresso social, segurança e paz de todos, não importa em ponto do Grande Morumbi (Vila Sônia – Morumbi – Vila Andrade, incluídos nisso Paraisópolis, REal Parque, etc) vivam essas pessoas. Há gente barulhenta, desonesta, preconceituosa em todas as classes sociais e em todos os locais. Assim como no SOS Morumbi há preconceito, é verdade que também o há em Paraisópolis e outras comunidades, só que ao contrário, mas tanto em um como em outro, são minoria. É isso. Vamos deixar um mundo melhor para os nossos filhos ou não???

  2. Sinceramente percebi que o as pessoas que “deveriam” nos proteger da violência, afinal recebem pra isso, sim recebem mau, mas recebem, só começaram a fazer algo, a tomar alguma “atitude” depois que pessoas de alguma “importância” começaram a sofrer com a violência nossa de cada dia ( afinal nós do planeta terra do salario mínimo já convivemos com  isso ha um pouco mais de tempo).
    Acredito que em vez de manifestações em pruo de colocarem dp militares aqui, deveriam fazer manifestações para que Paraisópolis tenha mais meios de melhorar sua educação, saúde e transporte, porque violência mesmo aqui é no existe muita não tem gente que se respeita muito mais aqui do que em qualquer bairro de classe média alta. 

  3. A sociedade esta em evolução os orgãos com departamentos entre diverças áres estãotambém em evolução,o nosso pais está indo do 3o mundo ao 1o mundo quse que em um pulo só,os locais e regiões próxima estão melhorando as condições comparados em que estavam antes,pessoas e seres humanos que precisam de capacitação estão tendo a oportunidade de voltarem ao convívio social digno existe simk uma pequena parcela que está ainda precisando de educação e capacitação sejam parcelas da comunidade ou de bairros de classes média e outras regiões.Reivindicar é compreentivo acho que se as pessoas que estão reivindicando melhorias para areas próxima ou na comunidade poderiam conhecer melhor as comunidades e suas proximidades ou então reivindicar melhorias para dentro de suas regiões e seria mais fácil ter UPPs na Vila Sônia ou Vila Andrade e região do que dentro de uma comunidade que existe uma situação pacifica de converça com os orgãos e suas esferas.

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