Ana Paula Padrão participa do Dia de Cidadania em Paraisópolis

Ana Paula Padrão participa do Dia de Cidadania em Paraisópolis

Publicado no site Tempo de Mulher.

A jornalista entrevistou Ana Magalha, a empreendedora que deu a volta por cima na vida vendendo espetinhos em uma barraca de rua.
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Ela já foi moradora de rua e também já teve que dormir no açougue em que trabalhava. Hoje, aos 45 anos, Ana Magalha é um exemplo para muitas mulheres no Brasil. Graças à ideia de vender espetinhos na rua, se tornou uma empreendedora e está conseguindo reconstruir a vida após muitos anos de sofrimento.
Quem vê a mineira falante, de sorriso largo e bom-humor, nem desconfia de tudo que ela já teve que enfrentar. Ana Magalha foi entrevistada pela jornalista Ana Paula Padrão, numa ação do Tempo de Mulher no Dia de Cidadania, em Paraisópolis, São Paulo. A entrevista foi transmitida pela Rádio Nova Paraisópolis (87,5 FM) para a comunidade, que hoje conta com cerca de 100 mil habitantes, numa ação patrocinada pela marca Dove, em parceria do Tempo de Mulher com a agência Cross Networking. Durante 45 minutos de conversa, Ana Magalha falou que o mais difícil de tudo foi vencer a si mesma. Após viver anos de muita pobreza e ser vítima de abusos morais por parte do ex-marido, chegou a perder a autoestima e duvidar de que seria capaz de construir alguma coisa positiva.
Ana Magalha nasceu em Belo Horizonte. Na entrevista à Ana Paula Padrão, contou que, como muitas mulheres jovens, engravidou sem planejar, e, sozinha, sem dinheiro, decidiu ir para São Paulo. Chegou à cidade em 1986 e teve que morar na casa de uma família que não era a sua. Enquanto estava grávida prestava serviços para eles cozinhando, arrumando a casa, lavando e passando roupa. Mas quando o bebê, uma menina, nasceu, a família passou a se sentir incomodada e Ana teve que sair de lá. Sem ter onde ficar, acabou indo morar na rua. Durante seis meses perambulou com a filha pela cidade dormindo em calçadas e marquises. Às vezes se escondia nos banheiros de lugares públicos, como o metrô e a rodoviária. Quando era descoberta tinha que arranjar outro lugar para ficar.

Arrasada, sempre chorando muito, sem dinheiro até mesmo para comprar uma roupinha para a criança, decidiu entregar a filha para os parentes em Belo Horizonte criarem. Seu plano era voltar a São Paulo, arrumar trabalho e conseguir condições financeiras para buscar a menina para viver com ela. Voltou à capital paulista e, assim que chegou, conheceu um homem por quem se apaixonou. Em quinze dias foram morar juntos. “Eu queria formar uma família e recuperar a minha filha”, contou. Engravidou novamente e teve o segundo filho, desta vez um menino, mas o sonho da família feliz não se realizou. Viveu um casamento doloroso, no qual sofria constantemente com traições.
O marido era dono de um açougue e gastava todo o dinheiro com outras mulheres. “Eu trabalhava para patrocinar os casos dele”, revelou. Além disso, ele a destratava. Abusava dela moralmente com insultos, a chamava de “gorda”, “malvestida”. Foram tantas e tão constantes as agressões que Ana perdeu completamente a autoestima. “Me achava feia, incompetente, achava que não era uma mulher de verdade”, confessa hoje com um pouco de tristeza na voz. Como se não bastasse tudo isso, o sócio do marido no açougue deu um golpe na praça e o deixou com muitas dívidas. Os credores foram implacáveis. Tomaram a casa do casal. “Levaram tudo, eu vi eles entrando na minha casa, levando TV, as cobertas, tudo, tudo”, lembra.
Sem ter onde morar, a família se mudou para dentro do açougue. “Dormia no chão e me cobria com as minhas próprias roupas”, contou ela aos ouvintes de Paraisópolis. Mas não se abateu, “tomei à frente das dívidas do açougue e passei a negociar com os credores e com os fornecedores para que eles não deixassem de entregar a carne para que nós pudéssemos vender e pagar o que devíamos. Foram cinco anos em que eu, praticamente, não saí de dentro do açougue. Costumo dizer que ‘foi uma cadeia que paguei’, fala sobre esse período. Só percebi que vivia presa quando um dia saí e vi que tinham feito uma obra grande na região e eu, sem sair de casa, nem tinha visto”.
Mas foi nesse momento, sufocada em dívidas e abalada por um casamento infeliz, que Ana teve uma ideia que transformou sua vida. “Decidi que além de tocar o açougue eu ia vender espetinho na rua, afinal, carne eu já tinha, né?”. O começo não foi fácil mas a ideia deu certo. “Montei uma barraquinha no meio da rua perto de casa, em Piraporinha, no Capão Redondo. No início não sabia fazer direito, vendia 10 churrasquinhos, mas queimava uns 30”.
Empreendedora nata, Ana Magalha percebeu que para fazer sucesso, além de ter um produto de qualidade, bem feito, precisava também investir em algo diferencial, para chamar atenção da freguesia. Mas como fazer algo sem dinheiro? Ana não se abateu, “Carrinho todo mundo tinha, decidi que eu ia fazer uma barraquinha. Fui atrás de cipó e pedi para uma pessoa fazer um quiosque pra mim com casca de árvore. Avisei que não tinha dinheiro e que só poderia pagar pelo serviço muito tempo depois, mas mesmo assim a pessoa fez. Foi quando descobri que eu tinha uma coisa muito importante, que era a credibilidade. As pessoas acreditavam em mim, confiavam, me viam batalhando, sabiam que eu cumpria minha palavra”.
A barraquinha, numa avenida do bairro, se transformou num sucesso. Sempre com vontade de crescer mais, Ana fez parte de um projeto de capacitação do BID, o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Com a renda, começou a reconstruir a vida financeira. Mas a vida conjugal não melhorou. O marido continuou com as traições, até o dia em que botou uma amante dentro de casa. Foi a gota d´água. Ana finalmente entendeu que não podia continuar num relacionamento tão abusivo. Com a autoestima renovada, reuniu forças e expulsou o marido de casa. “Ele não acreditou”, contou ela, “disse que eu ia pedir para voltar”. Ana não voltou. E hoje consegue se relacionar bem com ele. Com o sucesso da barraquinha, precisava de alguém que a ajudasse. Sem rancor, contratou o ex-marido, que hoje trabalha para ela. “Pago a ele um salário melhor, a vida dele melhorou, a minha também, e eu ainda ajudo ele a criar uma filha que teve com outra mulher e que abandonou a menina”.
Ana é hoje uma mulher realizada, com muitas coisas ainda para serem conquistadas, mas feliz de voltar a acreditar em si. Mesmo com a vida difícil, de muitas batalhas, ainda teve a oportunidade de descobrir um talento. É uma cantora incrível. Na primeira vez em que foi a um videokê foi notada pelo dono de um estúdio. Ele a convidou para gravar alguns trabalhos comerciais. Numa das sessões ela ainda teve o privilégio de conhecer um de seus ídolos, o cantor Peninha, que a chamou para cantar ali no estúdio com ele uma de suas músicas. Hoje, Ana Magalha tem uma banda chamada “Identidade Soul”, que chega a fazer média de duas apresentações por mês.
Dona de uma voz linda, ao fim da entrevista Ana Magalha ainda deu uma “palhinha” aos ouvintes da rádio e cantou trechos de duas músicas, “Eu sei que vou te amar” e “Joga Fora”, música de Sandra de Sá, cuja letra diz “É, cansei já não dá mais / Você pisou demais / Pra frente é que se anda / A vida leva e traz… / A paz que eu quero ter / Tão longe de você / Eu sei que vai ser duro / Mas tenho que esquecer / Vou jogar fora no lixo / Vou jogar fora no lixo / Joga fora no lixo!
E quando Ana Paula Padrão pediu que a entrevista fosse encerrada com um recado às mulheres de Paraisópolis e de todo o Brasil, Ana Magalha foi taxativa, “Acorda mulherada! Não se submeta aos maus tratos, você é um ser capaz de gerar vida, então é capaz de gerar possibilidades. Se você está se sentindo pra baixo, você pode começar a vender pastel, por exemplo, e fazer disso algo grandioso. Eu fiz isso e hoje digo que valeu à pena”.
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Joildo Santos

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