Domingo foi dia de eleição em Paraisópolis

Por Mayara Penina e Vagner de Alencar para o Blog Mural da Folha.com

“Chega de hipocrisia, queremos uma Paraisópolis diferente. Gilson Rodrigues Presidente”, anunciava o carro de som neste domingo, nas ruas de Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, na zona sul da capital. Era o dia de eleger o presidente da Associação de Moradores e Comércio do bairro.
Acirrada, a disputa à presidência do órgão teve direito a tudo o que uma eleição convencional tem: faixas de candidato com políticos famosos, jornais com programa de propostas, carros de som e muitos panfletos. “Não pode panfletar aqui, só a vinte metros da urna. Olha, não insiste que eu posso impugnar essa urna”, avisava uma fiscal da comissão eleitoral no posto de votação de maior movimento.
Os dois candidatos, Gilson Rodrigues, 27, atual presidente em seu terceiro mandado, e Zé Maria, apoiado pelo vereador José Rolim (PSDB) – que presidiu a associação durante seis mandatos consecutivos -, circularam pelo bairro em busca de votos. Enquanto isso, os “panfleteiros” tentavam mobilizar a população angariando simpatia.
Durante o pleito, moradores cantavam: “Lula é Gilson. Gilson é Lula”. Nas faixas estendidas por ruas da comunidade, o candidato posava ao lado do ex-presidente da República Luis Inácio Lula da Silva.

Cartaz de Gilson Rodrigues ao lado de Lula

“Eu sou líder comunitário há 30 anos; conheço Paraisópolis há 35. Essa é a terceira vez que me candidato. Sempre prestei serviço à comunidade sem nenhum pagamento. Nós queremos ser lideres comunitários com respeito”, falou Zé Maria.
Segundo dados da própria associação, a comunidade tem cerca de 100 mil moradores. Neste ano, 3.046 foram às urnas, 600 pessoas a menos que no pleito anterior. Eram 25 postos de votação espalhados por igrejas, bares e instituições.
“A baixa participação popular se dá porque muitos moradores não sabem de fato o papel da associação”, explica Joildo Santos, ex-diretor de comunicação e atual vice-presidente. Foi o caso de Arnaldo Ribeiro da Silva, 32, que com uma urna a trinta metros de sua casa, preferiu não sair de casa.
Para votar, era necessário ter mais de 16 anos e apresentar RG e comprovante de residência. O estudante Rafael Rodrigues, 22, destacou a importância da eleição: “Me sinto mais morador ao votar, pois penso na melhoria da comunidade. Acho que a associação é a única que trabalha aqui dentro a favor da população”.
Panfleteiros entregam 'santinhos' durante votação

A disputa contou até com paródia feita pela oposição: “Espaço do Povo” virou “Espaço contra o Povo”, e Zé Maria apontou possíveis irregularidades na gestão de Rodrigues. Ele questionou o adversário sobre os R$ 4 milhões recebidos em um leilão para o projeto de alfabetização em agosto do ano passado. Segundo Rodrigues, a Associação Escola do Povo, ao qual foi destinado o dinheiro arrecadado pelo leilão, é uma entidade distinta.
Houve até pesquisa de intenção de votos. Segundo o candidato Zé Maria, ele teria 70% de aprovação.
Rodrigues se defendeu das acusações e disse que a campanha arquitetada pela oposição foi baseada em mentiras: “A pesquisa de intenção de votos não existiu, assim como não existiram os quatro milhões, assim como não existiu a cassação, assim como não existiu a champagne francesa [todas acusações apontadas pelo candidato da oposição]”, afirmou.
A apuração foi realizada no CEU (Centro de Educação Unificado) de Paraisópolis, que, com pompas de uma eleição convencional, garantia gritos de comemoração a cada resultado parcial das urnas.
Morador Rafael Rodrigues, 23, durante votação

Neste ano, apenas 292 votos separaram os candidatos. Gilson Rodrigues se reelegeu por mais dois anos.
A Associação de Moradores e do Comércio de Paraisópolis é uma entidade sem fins lucrativos que tem como objetivo somar melhorias à comunidade. Foi criada em 1983, e a diretoria é eleita por meio do voto direto dos moradores da comunidade.
Segundo Gilson Rodrigues, militante desde a juventude e futuro candidato a vereador, o desafio deste mandato é garantir que as obras que urbanização da comunidade sejam concluídas. “A segunda coisa é garantir também que seja construído um hospital na comunidade, porque dessa forma vamos garantir que o programa de urbanização seja completa”, finaliza.

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