PARAISÓPOLIS S/A: O Paraíso dos Negócios

Viceland

TEXTOS E FOTOS POR ANDRÉ VIEIRA

Edivaldo de Souza Barbosa, deixou um emprego na loja de irmã em Pinheiros para abrir a Brilhante Semi-Jóias, que abastece outras lojas na comunidade e até lojas na Avenida 25 de Março, templo do consumo popular no Centro de São Paulo. Além do negócio com jóias ele investe em pontos comerciais ao redor da comunidade.

Para a maioria dos brasileiros que não vivem em favelas, pensar em capitalismo dentro delas significa imediatamente imaginar trainees magrinhos, descalços e sem camisa com uma mochila de sacolés de cocaína nas costas e uma pistola na cintura comandados por CEOs com fuzil espalhafatoso no ombro focados em literalmente queimar a “concorrência” em seus sofisticados micro-ondas, produto de mais alta tecnologia desenvolvido localmente. Os mais ciosos de sua própria história corporativa acumulando os restos em um head fund, tão herméticos e inexpugnáveis quanto os hedge funds que quebraram a banca da economia global. Um modelo de negócios muito mais influenciado por Darwin do que por Jack Welch.
É verdade que o clichê preconceituoso reflete ainda uma parte da realidade de muitas comunidades (termo cujo uso já reflete uma bem- sucedida estratégia de branding) Brasil afora, mas ignora uma profunda transformação em andamento.
Nos últimos seis anos apenas, cerca de 20 milhões de brasileiros fizeram o upgrade para classe C, letra que não representa apenas a inicial de capitalismo, mas também o que muitos analistas consideram a nova classe média brasileira. E uma parte significativa desse povo mora e pretende continuar morando nas favelas, ou melhor, comunidades (olha o C aí de novo) onde encontraram o rumo ascendente na vida. É uma classe que ganha entre R$ 1.115 e R$ 4.807 (economistas têm aversão a números redondos) e que, de carnê em carnê, é a grande responsável por ter mantido a economia nacional a salvo da crise que ainda vem causando devastação ao Norte do Equador.
E se os grandes players do capitalismo nacional estão mandando até etnógrafos para dentro das comunidades para tentar entender melhor esses newcomers no mundo do consumo, os negócios que nasceram já dentro dessas comunidades estão em posição estratégica para colher os frutos dessa bonanza. Paraisópolis, encravada em meio a uma floresta de torres de gosto duvidoso com apartamentos vendendo nos high six figures no nobre bairro paulista do Morumbi, é o perfeito case study para o fenômeno.
Sandra Margareth Pinheiro, dona da Sandra Lingerie, já teve loja em Pinheiros. Como o negócio não deu certo desfez a sociedade e veio para Paraisópolis, onde finalmente encontrou sucesso. Agora ela já pensa em abrir uma segunda loja num shopping.

São 8 mil estabelecimentos comerciais que movimentam no mínimo 36,5 milhões de reais por ano. Esse número na verdade é uma estimativa rudimentar feita por Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores de Paraisópolis, já que um estudo detalhado da economia local nunca foi feito. O próprio Gilson acredita que esse valor hoje já deve ser bem maior. E o mercado consumidor da comunidade não se limita aos seus cerca de 100 mil moradores.
“Vendo até pra 25 de Março (principal endereço de comércio popular da cidade de São Paulo, que diariamente atrai multidões de sacoleiros do Brasil todo)”, garante Eduardo de Souza, dono de uma pequena loja de joias na Melchior Giola, o endereço nobre do comércio paraisopolitano. Eduardo não é originalmente de Paraisópolis, se mudou para lá apenas por causa de seu negócio, há dez anos. Foi um dos primeiros comerciantes de fora a superar o preconceito e apostar no potencial capitalista da segunda maior favela de São Paulo. Trabalhava na loja da irmã em Pinheiros quando um amigo lhe deu a ideia da aventura.
“Ele disse ‘monta o negócio que dá certo’. Abri e deu,” diz, detrás do pequeno balcão emoldurado por uma enorme tela de plasma exibindo um show de música sertaneja, ao final de dois longos corredores abarrotados de colares, pulseiras e brincos folhados a ouro e prata. Hoje seu faturamento mensal com o negócio, cerca de R$ 30 mil, é 50% maior que os R$ 20 mil que tirou do próprio bolso para começar sua vida empresarial em Paraisópolis.
A notícia deve ter corrido, pois o valor dos pontos comerciais da comunidade disparou nos últimos anos. “Eu comprei um ponto por R$ 25 mil e hoje se pedir R$ 120 mil vendo fácil. E isso em três anos!”, se espanta Eduardo, que cedo percebeu o potencial do mercado de “real state” local e já abocanhou vários pontos espalhados pela favela. O dinheiro extra dos aluguéis ajuda a garantir sua renda de classe A. “Tudo o que eu quero eu tenho”, garante.
Quem melhor definiu o frenético ambiente de negócios em Paraisópolis foi Raimundo Nonato Santos da Silva, que acaba de abrir sua própria oficina de estamparias: “fala-se por aí que até se colocar merda pra vender, vende”.
Roniel Silva de Lima trabalhava numa pet shop no Morumbi quando resolveu abrir o próprio negócio. Seu plano é em uma ano e meio tirar um salário de R$ 10 mil por mês de sua loja. Roniel já está procurando um endereço para abrir sua segunda loja, dessa vez voltada para a clientela do Morumbi.

E não é que o povo dali compre qualquer coisa e não esteja preocupado com qualidade. “Aqui tem um público exigente, porque mora no Morumbi. As pessoas gostam de comprar coisas boas e num lugar organizado. Os comerciantes que percebem isso são os que se dão melhor”, garante Gilson, o líder comunitário.
Um passeio pelas vielas da comunidade confirmam o que ele diz. Os estabelecimentos mais recentes poderiam estar num shopping ou em qualquer outra área comercial da cidade que chamariam atenção. E a diversidade impressiona. Fora os salões de beleza, que são mais numerosos que farmácias, e os onipresentes botequins, sacolões, sacolinhas e lan houses (mais de 50), Paraisópolis tem butiques com roupas de grife, lojas de tênis topo de linha, lojas de móveis, de celular, de tunagem de carro, transportadora, tatuador, churrascaria, creperia, restaurante japonês, sex shop e, talvez a prova maior de que a comunidade entrou com tudo na classe média, uma pet shop, completa com serviço de banho, tosa e entrega do totó perfumado e com fitinha na orelha na porta de casa, não só dentro da comunidades mas no vizinho Morumbi também.
Há apenas um ano com o negócio aberto, Ronivel Silva de Lima, 28 anos, o dono da pet shop, já pensa até em se aventurar fora das fronteiras “paraisopolitanas”. “Pretendo abrir uma loja na Giovanni Gronchi”, uma das avenidas principais do Morumbi. “Minha meta de vida é em um ano e meio ter salário de 10 mil reais”.
Ronivel, apesar de sentir falta de melhor formação para gerir seu negócio, está um passo a frente da maioria de seus pares “paraisopolitanos”, tendo seu negócio todo legalizado, com firma estabelecida, impostos pagos e seus dois funcionários com carteira assinada.
Mas a informalidade que predomina é inegavelmente uma vantagem competitiva. “Aqui não tem fiscalização. Não adianta a gente ser hipócrita, aqui dentro não compensa ser legal”, confidencia um empresário local que, por razões óbvias, ficará anônimo, apesar de seu próprio negócio ser todo legalizado. Como explica outro, “se a gente for pagar todos os impostos não sobrevive”. Milton Friedman não discordaria.
Mas o sucesso tem seu preço e em breve esse quadro pode mudar. Não é só economicamente que Paraisópolis está se transformando. Nos últimos anos uma série de investimentos federais, estaduais e municipais está aos poucos dando à comunidade infra-estrutura de bairro. E com saneamento, eletricidade, ruas, novas habitações e serviços públicos também deve chegar a tão temida fiscalização. Apesar de brincar dizendo que Paraisópolis é a melhor favela para se morar, Gilson, o líder comunitário, salienta: “ninguém sonha morar em favela”. Já preparando o terreno para as mudanças mais profundas que a comunidade sofrerá, a União dos Moradores recentemente iniciou um programa de legalização dos negócios locais, auxiliando os empreendedores locais no processo de formalização. Até agora 150 empreendimentos já aderiram ao programa. “Acho que isso vai dar um boom à economia local”, espera Gilson. “Paraisópolis está mudando de cara com a nova geração”, garante.
Apostando nesse boom, algumas empresas de fora já começam a querer se instalar na comunidade. A Casas Bahia foi a pioneira, com uma enorme loja logo na entrada da favela. Bradesco e Riachuelo já estão em busca de imóveis para fazer o mesmo.
Gilson acredita que até 2014, quando deverão estar concluídas as obras de infra-estrutura sendo feitas no local, Paraisópolis já possa ser considerado um bairro. Para deixar de ser visto como favela, no entanto, o tempo deve ser maior. “Acho que aí vai precisar de uns 30 anos.” Para ajudar no processo psicológico o líder comunitário sugeriu à Prefeitura que, com a conclusão das obras, a comunidade seja rebatizada. Morre Paraisópolis e nasce a Nova Paraisópolis, um bairro orgulhosamente classe C.
Luck Tattoo & Piercing, o único estúdio de tatuagem de Paraisópolis. Em breve o estúdio também terá um salão de cabeleleiro e serviço de estética.

Maria do Socorro Carvalho de Farias, dona da Star Lingerie, uma sex shop na rua nobre do comércio de Paraisópolis, a Melchior Goia. Ela começou vendendo seus produtos de uma caixa na garupa de sua moto, depois de ter passado um bom tempo como sacoleira de brinquedos sexuais.

Issac Manuel da Silva abriu a primeira lan house de Paraisópolis, a Visão Informática, mas agora sofrendo com a concorrência de outras 50 lan houses espalhadas pela comunidade pensa em montar o primeiro curso de línguas de Paraisópolis.

Valdivan Souza e José Luis são sócios do salão Val e Coffee Hair Designer. O salão começou com um investimento de R$ 600. Apesar da competição forte da concorrência (Paraisópolis tem mais salão que farmácia) os dois pretendem em breve estar expandindo o negócio para oferecer depilação, maquiagem e até um spa com ofurô, para poder oferecer o “dia da noiva”.

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